'São Paulo – 03h40min. – 10.01.2012'
O frio havia se aproximado da cidade na noite anterior. Ele, sem dormir, acabará de preparar um chá quente e encontrava-se sentado na mesa do computador. As lembranças norteavam seu quarto, que estava com a janela aberta. Já era de costume a janela de seu quarto permanecer aberta em dias de frio. Ele adorava sentir o vento durante a noite, e por vezes, várias, colocava seu rosto contra a janela e respirava, puxando o ar lentamente para os pulmões. No computador apenas uma imagem visualizada na tela principal e na mesa a xícara de chá, camomila, e um cigarro apagado. O seu quarto era como se fosse o útero de sua falecida mãe, mesmo que ela tenha entrado ali por poucas vezes, todas as coisas pequenas e de grande importância que ela tinha em vida encontravam-se ali, em especial, uma caixinha com cartas que a mesma entregou para ele nos últimos segundos de vida, cartas essas nunca abertas. A curiosidade e seu estado, quase nostálgico, fizeram com que sentasse na cama e começasse a abrir uma por uma...
“Desculpa não volto nunca mais. Te amo por demais e não sei como dizer isso, mas preciso. Um dia, bêbado, eu lhe trai aqui no Rio de Janeiro, e descobri que estou doente e não tem jeito. Essa traição me custou o amor que tinha por você e pela nossa criança e para não causar mais sofrimento eu deixo vocês e fico aqui, em meu sofrimento, e sozinho. Sei que cuidará muito bem do nosso pequeno e não conte nunca a ele as besteiras que eu fiz ao longo da vida. Deixe ele crescer e levar a vida, poderá me odiar eu sei mas nunca estragará seus sonhos, pois será um ótimo homem querendo ser diferente do pai e melhor. Amo os dois”
Os erros ortográficos na carta eram comuns. Francisco, seu pai, não concluiu o ensino fundamental e pouco escrevia, a não ser para sua amada esposa, enquanto estava viajando à trabalho. Nesse momento, o pobre menino que não chegou a conhecer o pai, da maneira que gostaria, se tornou um homem e perdeu a pessoa mais importante, sua mãe. Com uma lágrima descendo pelo olho esquerdo, e sabendo que na verdade seu pai teve mais caráter com a família ao abandoná-la do que ele pensava, sentiu uma agonia no peito, seguida por uma falta de ar, indo direto até a janela. Lá, olhando para rua, observou a sua futura estrutura que substituirá sua mãe. Camila chorava sem saber notícias dele e resolveu enfrentar a perigosa cidade durante a madrugada, sem saber se em casa Miguel encontrava-se, apenas para poder dizer: “Pode contar comigo. Eu te amo”. O rosto daquela linda menina era a mesma imagem que estava ampliada na tela do computador. Ali, o homem que ainda era um pobre menino com medo de perdas e de mortes encontrou um motivo para acreditar novamente na vida.